Thursday, March 06, 2014

Rejeitados



Há uns 2 anos, me pediram para escrever um artigo com a minha visão sobre Clara dos Anjos, romance do Lima Barreto que adaptei para os quadrinhos. O artigo não foi aceito. Minha visão acabou sendo muito pessoal porque vi na obra do autor semelhanças com o meu subúrbio. Erro fatal. De qualquer forma, compartilho com vocês. Ah, e logo abaixo, também recusada, a capa que eu e o Wander sugerimos para o livro.

Tão longe, tão perto 

       Inesperadamente, o cheiro do subúrbio invadiu meu estúdio. Talvez o objetivo fosse me preparar para o telefonema que viria a seguir. Do outro lado da linha, um editor com uma proposta para adaptar para os quadrinhos Clara dos Anjos, romance escrito por Lima Barreto (1881-1922), um dos mais instigantes escritores brasileiros. 
     
          - Será um prazer, mas primeiro deixe-me conhecer melhor o universo barreteano...
     
          Mentira, eu já conhecia. Aos dois anos, dentro de um caixote de maçãs argentinas,comecei a tatear aquele mundo estranho, povoado por negros, brancos e pardos em uma área suburbana de Minas Gerais. Revi a panela preta suja de fuligem da vizinha que tomava conta de mim enquanto meus pais trabalhavam fora. A galinha trêmula e sem cabeça na porta da cozinha,enquanto seu sangue escorria aparado pela bacia para o molho pardo do almoço. O carvão que eu fazia de lápis para rabiscar as paredes por onde passei.          
          Aceito o desafio, eu e o roteirista Wander Antunes traçamos alguns planos que julgamos úteis para nos guiar pelo complexo universo do autor. Já a primeira página do livro pedia uma visão geral do subúrbio, com suas construções e estrutura urbana peculiar. Munido de farto material imaginário, aos poucos recolhi também materiais iconográficos disponíveis: fotos, gravuras e pinturas serviriam para alguma inspiração. Mas havia carência de material descritivo e fotográfico suficiente para me apoiar. Em suas descrições, Lima só disse que as construções suburbanas do Rio de Janeiro eram caóticas e que privilegiavam o aspecto funcional com seus “puxadinhos” em detrimento da estética. Nem mesmo nos registros do fotógrafo Augusto Malta (1864-1957), um dos mais importantes do início do século XX, encontrei elementos significativos daqueles lugares distantes. Era preciso pesquisar mais para chegar à representação Testei alguns materiais, inclusive o uso dos softwares gráficos para colorização das pranchas. Mas o resultado era límpido e uniforme demais para retratar aquele universo. Voltei à prancheta e cheguei à conclusão de que o subúrbio é como a aquarela e sua mistura de cores que se fundem, revelando outras, surpreendentes e inesperadas. 
   
          Assim reencontrei aquele ambiente, com seus habitantes tanto rudes quanto suaves, que na obra de Lima Barreto se associam, formando inocência e revolta. Suas paredes encardidas pediam ocres e sienas. Seus olhos tristes gritavam por Payne's grey, um cinza como a alma daquele povo sem sorte. O subúrbio de Lima era notadamente um lugar à parte, como um órfão que fora relegado e que não recebia qualquer tipo de assistência. Entendi que o escritor carioca queria contar a história do abandono e de suas consequências. Aquela vizinhança sem pai e sem mãe, de ruas tortas e casebres sem graça, era, para o autor, a exteriorização de um povo sem norte e carente, domesticado e de fácil manejo. A personagem Clara dos Anjos é uma metáfora da periferia negra e pobre. É a encarnação da falta de perspectiva e que vê em Cassi Jones, branco e rico, uma esperança de mudança, uma passagem para fazer a viagem inversa e ser finalmente aceita e adotada pela própria sociedade que a abandonou. Ali estava eu, imerso naquela realidade, a bordo daquele trem que ligava dois mundos tão distintos: subúrbio e cidade. No banco, à minha frente, uma senhora de ar aristocrático com suas três filhas. Ao seu lado, um gordo ensebado que dormitava. Vi também Cassi Jones, o grande personagem do livro, que sem cerimônia nem pudor jogava gracejos para a mais velha das meninas. Aqueles passageiros eram exatamente como a gente do meu subúrbio, no sertão mineiro, que só queriam uma passagem de volta e, ao invés disso, encontravam os ludibriadores que lhes eram superiores em posses e letras. No fundo do vagão, eu juro que vi Lima Barreto, com um pequeno caderno no qual anotava tudo que observava ao seu redor, suas impressões e juízos. Entre o seu subúrbio e o meu, apenas a falta de malícia ficou para trás.

Marcelo Eduardo Lelis de Oliveira é ilustrador do jornal O Estado de Minas e do quadrinho Clara dos Anjos, de Lima Barreto (Quadrinhos na Cia, 2011).
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